Setor Pesqueiro Brasileiro Alerta: Tarifa dos EUA já Causa Cancelamento de 500 Toneladas de Exportações

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Foto: Divulgação

Medida ameaça produção nacional e pode afetar abastecimento de pescado na Quaresma de 2026

A nova tarifa de 50% imposta pelos Estados Unidos sobre produtos brasileiros já causa impactos severos no setor pesqueiro. De acordo com a Associação Brasileira das Indústrias de Pescado (Abipesca), contratos que somam cerca de 500 toneladas de pescado foram cancelados desde quarta-feira (9), inviabilizando embarques ao mercado americano.

Segundo o diretor-executivo da Abipesca, Jairo Gund, o cenário é “catastrófico” e deve provocar um efeito dominó em toda a cadeia de produção e exportação. “O primeiro impacto é o cancelamento generalizado dos contratos. Compradores dos EUA e vendedores brasileiros estão rompendo negociações já firmadas, temendo prejuízos logísticos e financeiros”, explicou.

Incertezas aduaneiras aumentam o risco

A dúvida sobre quando a tarifa será aplicada — se no embarque no Brasil ou no desembarque nos EUA — é um dos principais fatores de insegurança. O tempo médio de desembaraço aduaneiro varia entre 25 e 40 dias. Caso a taxa seja cobrada na chegada, o pescado corre o risco de se tornar impraticável comercialmente no destino.

Para os exportadores brasileiros, o medo é arcar com o custo do retorno da carga. O frete de um único contêiner pode variar de R$ 12 mil a R$ 18 mil, dependendo do porto de saída.

Impacto na produção artesanal e na piscicultura

Com o travamento das exportações, pescadores artesanais e produtores de tilápia já sentem os efeitos. Produtos como pargo e lagosta, que representam 98% da pesca artesanal exportada, correm risco de encalhe. A pesca de lagosta, por exemplo, envolve 3.800 embarcações com até três tripulantes cada.

Na piscicultura, a situação é igualmente grave. A tilápia, principal peixe exportado aos EUA, somou 10,4 mil toneladas no último ano — mais de 30% de todo o pescado enviado ao país, segundo dados do Agrostat (Mapa). Com o bloqueio, o presidente da Peixe BR, Francisco Medeiros, alerta para impactos imediatos: “O peixe que será despescado entre julho e dezembro já está nos tanques, consumindo ração. O prejuízo é inevitável”.

Risco de desabastecimento na Quaresma

Se mantida, a tarifa poderá afetar a oferta de pescado para a Quaresma de 2026. Como o ciclo de produção da tilápia é de cerca de oito meses, a interrupção agora desestimula novos alojamentos nos meses decisivos de agosto e setembro.

“A válvula de escape das exportações está sendo fechada. Se não há como vender para os EUA, o produtor desanima e deixa de colocar alevinos na água. Isso vai resultar em menor oferta e aumento de preços para o consumidor interno”, alerta Gund.

A combinação entre a tarifa americana e a abertura do mercado brasileiro para a tilápia vietnamita pode gerar um “círculo vicioso”, segundo ele: “Desestímulo à produção nacional, estímulo à importação, perda de escala e risco de esfacelamento da cadeia produtiva”.

Falta de alternativas

Com os EUA praticamente fora do mapa, os exportadores não têm mercados alternativos viáveis para a tilápia. “Exportamos para mais de 40 países, mas nenhum tem volume ou preços como os americanos. Nosso grande concorrente é a China, e ela não compra nossa tilápia”, lamentou Medeiros.

Outras espécies, como a corvina, podem até encontrar novos destinos — como África e China —, mas com preços inferiores. “O sonho do setor é exportar para União Europeia, EUA e China. Com dois desses mercados fechados, sobra pouco espaço”, afirma Gund.

Setor pede negociação urgente

Tanto a Abipesca quanto a Peixe BR iniciaram articulações junto ao governo federal. A proposta é conseguir ao menos um prazo de 90 dias antes da entrada em vigor da tarifa, prevista para 1º de agosto, permitindo que exportadores e produtores se organizem.

“A ideia é buscar uma solução diplomática, como outros países já fizeram. Precisamos de sensatez e diálogo, sem embates ideológicos”, defende Gund.

Francisco Medeiros reforça o apelo: “Já acionamos pessoas ligadas à Presidência da República. É preciso iniciar uma negociação com os EUA. O setor pesqueiro não pode pagar essa conta sozinho”.

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