Equipamentos fabricados pela Hitachi Energy em Guarulhos integram sistema de transmissão de energia em corrente contínua (HVDC) de até 9 GW; logística mobilizou comboios de 845 toneladas pelas rodovias Ayrton Senna e Tamoios
O Porto de São Sebastião, no litoral norte de São Paulo, concluiu na quinta-feira (1º/10) o embarque de três transformadores de 342 toneladas cada, com destino à Arábia Saudita. Fabricados em Guarulhos, na Grande São Paulo, os equipamentos serão empregados em um projeto internacional de transmissão de energia elétrica em corrente contínua de alta tensão (HVDC, na sigla em inglês), tecnologia utilizada para transportar grandes volumes de eletricidade por longas distâncias com perdas reduzidas.
A operação encerra uma etapa logística que começou meses antes da chegada das cargas ao terminal. O primeiro dos três transformadores chegou a São Sebastião em 14 de maio, após percorrer as rodovias Ayrton Senna e Tamoios em um comboio de aproximadamente 845 toneladas e 138 metros de comprimento. Segundo o Governo de São Paulo, a previsão inicial era de que o deslocamento levasse cerca de um mês, mas a operação foi concluída em oito dias, com velocidade reduzida, veículos de apoio e acompanhamento de equipes técnicas durante todo o trajeto.
O equipamento e a tecnologia
Cada transformador possui potência nominal de 580 MVA e tensão de 380 kV. O peso de 342 toneladas corresponde à configuração de transporte: após a instalação definitiva, com a incorporação dos demais componentes, cada unidade poderá ultrapassar 512 toneladas. Os equipamentos integram a linha de produção da Hitachi Energy, que atua no Brasil há mais de 70 anos, e foram fabricados na unidade de Guarulhos.
Segundo a empresa, o conjunto utiliza a tecnologia Asymmetric Light HVDC, que permite instalações mais compactas e sustentáveis, reduzindo a necessidade de espaço e o impacto ambiental. Os transformadores foram projetados para operar por mais de 30 anos em diferentes condições climáticas. Quando concluídos, os sistemas HVDC do projeto terão capacidade total de até 9 gigawatts (GW).
A complexidade do empreendimento exigiu auditoria e certificação pela equipe técnica saudita, que verificou a capacidade técnica, a infraestrutura e os padrões de qualidade da operação brasileira. A produção local consolida a expertise nacional e amplia a visibilidade global da fábrica de Guarulhos dentro do grupo.
A logística rodoviária
O transporte das cargas especiais exigiu planejamento rigoroso e operações específicas na Rodovia dos Tamoios, administrada pela Concessionária Tamoios. A passagem de cada transformador foi dividida em três fases, realizadas no período noturno para reduzir o impacto sobre o tráfego:
- 1ª fase: deslocamento do km 11,5 ao km 54, trecho de planalto, pista sentido litoral, a partir das 22h;
- 2ª fase: continuidade do trajeto no trecho de serra;
- 3ª fase: saída do km 16,5 (Contorno Sul) em direção ao Porto de São Sebastião, a partir das 23h, com bloqueios momentâneos de cerca de quatro horas no sentido Caraguatatuba e desvio do tráfego pela Rodovia Rio-Santos (SP-055).
O terceiro transformador foi transportado entre os dias 28, 29 e 30 de setembro, conforme comunicado oficial da concessionária nas redes sociais. As cargas foram movimentadas por carretas modulares, com imagens da operação mostrando o envolvimento da Transportes Pesados Blumenau no reboque dos equipamentos.
A infraestrutura portuária
A movimentação ocorre após a entrada em operação de um novo acesso que conecta diretamente o Porto de São Sebastião ao Contorno Sul da Rodovia dos Tamoios. A ligação permite a entrada e a saída de caminhões do terminal sem a necessidade de circulação pela região central do município. A estrutura é formada por um viaduto de 280 metros e duas alças de conexão, integrando o sistema de conexão entre o porto e o Contorno Sul, inaugurado em novembro de 2024.
Para o diretor-presidente da Companhia Docas de São Sebastião (CDSS), Ernesto Sampaio, a operação demonstra a capacidade do terminal de ampliar seu perfil de cargas:
“O Porto de São Sebastião demonstra sua capacidade para operações de alta complexidade logística. A integração entre a estrutura portuária e a infraestrutura rodoviária permite atender cargas especiais de grande porte e conectar a produção paulista a projetos de alcance internacional.”
Contexto regulatório e jurídico
O Porto de São Sebastião é administrado pela CDSS, empresa pública vinculada à Secretaria de Meio Ambiente, Infraestrutura e Logística do Estado de São Paulo (Semil). O terminal tem perfil multipropósito e movimenta cargas destinadas aos mercados nacional e internacional, com atuação consolidada em granéis sólidos e, agora, em cargas especiais e de projeto.
A operação de embarque de cargas para exportação envolve procedimentos regulatórios específicos, incluindo o despacho aduaneiro junto à Receita Federal, a fiscalização marítima e portuária, e o cumprimento das normas de segurança da navegação e de movimentação de cargas de grandes dimensões. No âmbito rodoviário, o transporte de cargas indivisíveis exige autorização especial de trânsito, com escolta e sinalização adequadas, sob supervisão dos órgãos competentes e da concessionária responsável pela rodovia. A operação também observa as diretrizes ambientais aplicáveis às atividades portuárias e ao transporte de equipamentos de grande porte.
Perspectivas
O empreendimento prevê a fabricação de outros 13 equipamentos do mesmo tipo, totalizando 14 transformadores no conjunto. A entrega completa está prevista para setembro de 2026, e o sistema deve entrar em operação em 2027. Ainda não há confirmação oficial sobre se as futuras unidades também passarão pelo Porto de São Sebastião.
A movimentação reforça a posição do terminal paulista no segmento de cargas especiais e de projeto, um nicho de alto valor agregado que tende a crescer com a expansão da infraestrutura portuária e rodoviária do estado.
Por Redação/Rota55




















