Entre os grandes recebedores de royalties do país, São Sebastião é o mais bem colocado no ranking nacional de acesso à educação e encontra na matemática uma medida do futuro
Há números que apenas registram uma cidade. Outros ajudam a explicar o que ela está fazendo com as oportunidades que recebeu -= e até onde pode chegar.
São Sebastião acaba de aparecer na 13ª posição nacional em Acesso à Educação no Ranking de Competitividade dos Municípios 2026, elaborado pelo Centro de Liderança Pública. A edição deste ano compara 423 municípios brasileiros com mais de 80 mil habitantes. No pilar educacional, acesso e qualidade são medidos separadamente; no primeiro, entram indicadores como atendimento na educação infantil, matrícula nas etapas da educação básica e participação de alunos no ensino em tempo integral.
O número já seria relevante isoladamente. Mas se torna mais interessante quando cruzado com outra característica da cidade.
Com base nos dados consolidados da Agência Nacional do Petróleo para 2025, São Sebastião permanece entre os maiores beneficiários municipais de royalties do país e ocupa a 9ª posição nacional nesse recorte. Entre os grandes recebedores que também integram o universo avaliado pelo Ranking de Competitividade dos Municípios 2026, São Sebastião é o mais bem colocado em Acesso à Educação.
Não se trata de concluir que royalties produzem, por si, boa educação. Essa relação causal não está demonstrada e seria simplista sugeri-la.
O ponto é outro.
Os royalties são, por definição, compensações financeiras pela exploração de recursos naturais não renováveis. Há algo provisório em sua própria natureza: produção muda, preços oscilam, campos amadurecem e regras de distribuição podem ser alteradas. A ANP mantém inclusive projeções específicas para essas receitas porque seu comportamento depende de múltiplas variáveis.
Educação pertence a outra categoria de patrimônio.
Aquilo que uma criança aprende não se esgota com o campo de petróleo. O raciocínio desenvolvido por um jovem não perde valor porque o barril mudou de preço. Conhecimento não é retirado do território: é incorporado às pessoas.
Talvez seja essa a conta mais importante para uma cidade acostumada a conviver com números grandes.
E é nesse contexto que outra notícia, aparentemente muito menor, ganha significado.
Em outubro, 22 estudantes da rede municipal de São Sebastião, distribuídos entre Centro, Costa Norte e Costa Sul, participam do programa “Matemática Vanguarda”, daTV Vanguarda São José. Depois das seletivas, quatro deles chegarão à final no Teatro Municipal de São Sebastião. A proposta coloca alunos diante de desafios matemáticos e transforma conhecimento, raciocínio e desempenho em protagonismo público.
É evidente que uma competição não muda sozinha uma rede de ensino. Não substitui currículo, professor bem preparado, avaliação, acompanhamento pedagógico ou políticas consistentes de aprendizagem. Mas educação também se constrói por cultura.
Uma cidade diz muito sobre aquilo que valoriza quando escolhe o que coloca no palco.
Há décadas aprendemos a celebrar desempenho esportivo, revelar talentos, criar competições e reconhecer vencedores. É igualmente saudável quando um estudante percebe que resolver um problema complexo, dominar uma ideia ou desenvolver raciocínio também pode gerar reconhecimento.
E o Brasil precisa dessa mudança de perspectiva.
O PISA 2025, divulgado pela OCDE (OECD) neste mês de setembro, oferece uma medida incômoda da realidade nacional. Apenas 28% dos estudantes brasileiros de 15 anos atingiram pelo menos o nível 2 em matemática, patamar alcançado por 65% na média da OCDE. Nos níveis 5 e 6, que envolvem modelar situações complexas e escolher estratégias sofisticadas de resolução, a participação brasileira foi praticamente inexistente, diante de uma média de 8% nos países da organização.
O problema, portanto, não é simplesmente a falta de matemáticos. É mais profundo.
O país ainda tem dificuldade em formar jovens capazes de pensar matematicamente. E pensar matematicamente é algo muito maior do que fazer contas.
O próprio Inepdefine o conhecimento matemático avaliado pelo Saeb a partir de resolução de problemas, observação, estabelecimento de relações, argumentação, validação, indução, dedução e estimativa. Matemática ganha significado, segundo essa concepção, quando o aluno enfrenta situações desafiadoras e precisa elaborar estratégias para resolvê-las.
Essa definição parece ter sido escrita para o mundo que está surgindo fora das escolas.
Inteligência artificial, ciência de dados, programação, automação e inúmeras aplicações tecnológicas dependem, em diferentes graus, justamente desse repertório. A USP – Universidade de São Paulo descreve seu bacharelado em Ciência de Dados como uma formação situada na interseção entre Computação, Estatística e Matemática. Em Estatística e Ciência de Dados, a formação inclui cálculo, probabilidade, inferência estatística, aprendizado de máquina e mineração de dados.
A Unesco Brasil vai ainda mais longe. Em seu marco de competências em inteligência artificial para estudantes, recomenda bases multidisciplinares e destaca expressamente conhecimentos de matemática, álgebra, probabilidade, estatística, estruturas de dados e, em níveis mais avançados, álgebra linear e cálculo. A intenção não é transformar todos os alunos em engenheiros de IA, mas permitir que compreendam sistemas que já começam a organizar parte crescente da vida econômica e social.
O Brasil também começa a responder a essa demanda.
Em junho, oMinistério da Ciência, Tecnologia e Inovaçãoanunciou investimento de R$ 129 milhões em um programa de formação em inteligência artificial, com previsão de qualificar 5,8 mil pessoas até 2028, incluindo 1,8 mil desenvolvedores. Outros projetos aprovados no mesmo ano levaram o conjunto anunciado pelo ministério a aproximadamente R$ 354 milhões e mais de 47 mil beneficiários diretos.
No próprio município, só para ficar no terreno mais doméstico, aPrefeitura de São Sebastiãoestá habilitando profissionais da área pública em noções gerais de Inteligência Artificial para o serviço público, e na iniciativa privada, a empresa iibrasil está com curso aberto o ano inteiro para formação de desenvolvedores.
No mercado global, a direção é semelhante. O Future of Jobs Report 2025 aponta especialistas em Big Data, inteligência artificial e aprendizado de máquina, engenheiros de fintech e desenvolvedores de software entre as ocupações de crescimento percentual mais acelerado até 2030. IA e Big Data aparecem, ainda, entre as competências cuja importância deverá crescer mais rapidamente. Consulte oWorld Economic Forum.
Nada disso significa reduzir a escola a uma fábrica de mão de obra. Seria diminuir demais a educação.
Quem domina matemática também está mais preparado para interpretar juros, probabilidades, pesquisas, gráficos, estatísticas, riscos e informações financeiras. Consegue perguntar melhor, comparar evidências e perceber quando um número está sendo usado para esclarecer ou para enganar.
Matemática prepara para profissões. Mas prepara também para a vida.
É por isso que o resultado de São Sebastião precisa ser compreendido com a exata medida que os números permitem.
O 13º lugar é em Acesso a esse ensino, gerido pela Secretaria da Educação de São Sebastião, é um marco. Não significa que São Sebastião possua a 13ª melhor aprendizagem ou a 13ª maior proficiência matemática do país. O próprio ranking separa acesso e qualidade justamente porque são dimensões diferentes.
Essa ressalva não reduz o resultado. Ao contrário, indica a próxima pergunta. Depois de abrir a porta, o que uma cidade consegue construir dentro dela?
São Paulo mostrou, nos resultados do Ideb e do Saeb de 2025, que desempenho não é uma variável imóvel: o Estado avançou nos anos iniciais, finais e no ensino médio, inclusive em matemática. Isso reforça algo elementar em política educacional: acesso é indispensável, mas precisa desembocar em aprendizagem.
Para São Sebastião, essa discussão possui ainda uma dimensão territorial.
É uma cidade com 84,5 mil habitantes, segundo estimativa do IBGE para 2026, inserida numa economia que reúne petróleo, porto, logística, atividades marítimas, engenharia e serviços especializados. Formar crianças capazes de lidar com matemática, ciência e tecnologia, portanto, não é importar artificialmente uma agenda distante. É também conversar com o território em que elas vivem e com as transformações econômicas que poderão enfrentar.
Talvez aí esteja a melhor leitura da coincidência entre o ranking e o Matemática Vanguarda, da Globo. Uma cidade que alcança posição destacada em acesso à educação coloca alguns de seus estudantes diante de um desafio que valoriza justamente uma das competências em que o Brasil apresenta enorme dificuldade.
Não é ponto de chegada. É uma boa pergunta sobre o próximo passo.
Durante muito tempo, cidades ligadas ao petróleo puderam ser comparadas pelos barris produzidos, pelos recursos recebidos e pelos investimentos realizados enquanto essa riqueza circulava.
Há outra medida, entretanto, que demora mais para aparecer nos balanços. É o que aconteceu com as pessoas.
Se uma geração encontrou escolas, aprendeu mais, desenvolveu capacidade de raciocínio e teve condições de disputar profissões e oportunidades que antes pareciam distantes, parte da riqueza deixou de estar apenas no orçamento público e passou a existir no patrimônio intelectual da própria comunidade.
É nesse sentido que os números de São Sebastião merecem atenção. Não porque autorizem afirmar que todos os problemas da educação estejam resolvidos. Mas porque permitem formular uma ambição maior.
O petróleo ajuda a contar a história econômica da cidade. A matemática pode ajudar a contar a próxima.
Aos números, portanto, o que é da cidade.
E à educação, talvez caiba transformar aquilo que um dia foi riqueza debaixo da terra em algo que nenhuma mudança de mercado consegue retirar: a capacidade de uma geração inteira construir o próprio futuro.
Fonte: PanoramaLitoral






















