Luciano Trindade, D. Sc.*
Nesse último Dia dos Pais ouvi a preleção de um religioso que fez sua avaliação sobre o status quo da espiritualidade. Segundo aquele sacerdote há um movimento imprimido por alguns formadores de opinião, difundindo ideologias que visam eliminar a espiritualidade como dimensão de vida do ser humano. Ainda segundo aquele preletor, é importante que as pessoas busquem elementos que transcendam ao mundo material, independente da fé que o sujeito tenha aderência. O que não pode acontecer é que as pessoas percebam a vida como um curto percurso de individualismo e materialidade, concluiu. No mesmo encontro, tomei contato com dois conceitos: Indiferentismo religioso e apostasia da fé.
Posteriormente, pesquisando sobre o tema, verifiquei que indiferentismo religioso diz respeito ao total desinteresse pelos valores religiosos (Deus, as proposições da fé, a vivência segundo a fé…). Para o indiferente, Deus e a religião não constituem valores que mereçam ser procurados e apreciados; são problemas que não interessam, porque não são vitais.
Quanto a apostasia da fé, o termo apostasia consiste na condição de afastamento total e definitivo de alguma coisa, como uma doutrina, ideologia etc. e, consequentemente, a apostasia da fé não só é a renúncia da fé religiosa, mas o viver sem o reconhecimento da espiritualidade. Tais comentários fizeram-me refletir sobre os caminhos cuja maior organização escoteira brasileira vem seguindo.
Partindo da proposição do fundador, o herói inglês Robert Baden-Powell, o Escotismo é um movimento teísta e, mais que isso, expressamente requer que seus adeptos cumpram deveres para com Deus. Um compromisso originalmente definido pelo fundador do Escotismo e que segue da mesma forma até os tempos atuais, sendo cláusula pétrea e vigente na constituição da World Organization of the Scout Movement – WOSM, tanto no artigo I (Propósito) quanto no artigo II (Princípios) onde consta expressamente “Duty to God”, balizando, portanto, todas as associações escoteiras nacionais (NSO’s) vinculadas a maior organização mundial representativa do Escotismo.
No Brasil, a promessa escoteira realizada pelos associados das diversas associações nacionais, incluída a maior organização escoteira nacional e vinculada a WOSM, mantém os “deveres para com Deus” como um dos elementos da tríade ao qual todo jovem ou adulto afirma prometer “por sua honra”.
Algumas associações escoteiras nacionais (como na Austrália e na própria Inglaterra), buscando uma atitude tolerante com indivíduos sem convicções espirituais alinhadas ao proposto pelo Escotismo, criaram “promessas escoteiras alternativas” buscando abarcar esse público. Contudo, essas mesmas associações são claras sobre seus programas considerarem a existência de Deus, de oferecerem aos jovens atividades de desenvolvimento espiritual e, portanto, exigirem dos voluntários adultos a aplicação de tais atividades, de forma alinhada a convicção institucional.
O Escotismo brasileiro passou recentemente por grandes discussões relacionadas a mudança de princípios na associação escoteira numericamente majoritária. Delegados dessa entidade numa quase infindável assembleia acabaram por assentir pela mudança de seus princípios, mantidos há mais de um século. Mais do que isso, percebe-se no discurso de adultos escoteiros, alguns dos quais formadores de voluntários (WB3, WB4) e, portanto, formadores de opinião, um discurso extremamente aderente ao indiferentismo religioso e apostasia da fé.
Elementos relacionados a atividades no campo da área de desenvolvimento espiritual vão sendo paulatinamente retirados da matriz de conteúdo dos cursos de formação e alguns formadores, a revelia do que está posto no próprio manual de cerimônias da instituição, vem pregando a abolição das orações previstas até mesmo nas cerimônias de abertura e encerramento, sugerindo que sejam substituídas por “reflexões” a moda daqueles livrinhos de frases bacanas, mas sem nenhuma menção a um Ser Superior e totalmente esvaziadas de espiritualidade. Uma ideia criada da cabeça desses alguns, não oficial e, portanto, uma verdadeira “fake news escoteira”, já que Escotistas, voluntários que atuam com os jovens, por inexperiência, medo de errar e repletos de incertezas quanto ao que fazer, não querendo ferir susceptibilidades, acabam aderindo a “sugestão” ou, na maioria dos casos, simplesmente deixando de ofertar atividades no campo do desenvolvimento espiritual.
Assim, dentre políticas inúteis, medalhas e distintivos lançados a mais de ano que não se encontram para comprar, seguem os enormes avanços da gestão. Avanços onde quem está na ponta se sente cada vez menos confiante em conduzir, corroborando para a baixa qualidade das atividades ofertadas, o desânimo, a incerteza, a falta de resultados observáveis nos jovens, a falta de percepção de valor dos pais e consequente evasão, tanto do jovem escoteiro quanto do adulto voluntário.
Enquanto isso, movimentos, associações e federações não alinhadas com contemporaneidades impostas, deixam as assembleias juvenis e rodas de conversa de lado e vão crescendo e se multiplicando, mesmo oferecendo um “tradicional” programa “ultrapassado”, simples e prático, que conta com a simpatia de pais, jovens e voluntários mais experientes. Por que será?
Referência:
WOSM. Constitution of World Organization of the Scout Movement. August. 2021. [online] Disponível em: https://members.scout.org/…/2021_WOSM%20Constitution_EN… Acesso em 15/08/2022.
* O autor é cristão, já tendo congregado tanto na igreja católica quanto protestante. Filho de pai de religião de matriz africana e mãe espírita kardecista, ajudou a fundar um grupo escoteiro budista, seu melhor amigo é judeu e considera outro amigo declaradamente ateu uma das pessoas mais espiritualizadas que ele conhece. Intolerância religiosa (ou qualquer outra) não está em seu repertório.
O Escotismo que queremos. Recomeçar com alegria!
Ilustração: Adão Meira. Reprodução parcial de Revista Paz e Terra





















