Ex-prefeito, réu em ação penal por desvio de munições e investigado por violência doméstica, vê a base eleitoral derreter: 9.534 votos contra 23.501 da reeleição
O ex-prefeito de São Sebastião, Felipe Augusto (PSDB), encerrou a eleição de 2026 neste domingo (4) com um resultado que soa como um terremoto político no Litoral Norte: apenas 9.534 votos no município na disputa por uma vaga na Câmara Federal. O número é o menor desde 2012, quando ele disputou a Prefeitura pela primeira vez — e fica a anos-luz dos tempos de glória eleitoral que o consagraram como um dos nomes mais fortes da política local.
A queda é brutal quando colocada lado a lado com o histórico do tucano:
- 2012 – 11.993 Votos (primeira candidatura a prefeito)
- 2016 – 19.924 Votos
- 2020 – 23.501 Votos, reeleito com Reinaldinho como vice
- 2026 – 9.534 Votos, agora sem o apoio do atual prefeito
Embora sejam pleitos por cargos distintos — prefeitura contra Câmara Federal —, os números desenham uma trajetória de derretimento eleitoral que os estrategistas políticos já classificam como um sinal de alerta máximo para o grupo do ex-prefeito.
O peso da sombra jurídica
O resultado convida a uma reflexão incômoda sobre o que mudou entre 2020 e 2026. E a resposta, para os críticos, está nos tribunais. Felipe Augusto chega ao fim desta eleição carregando um passivo judicial e político que não existia quando foi reeleito com folga:
- Réu em ação penal por desvio de munições da GCM
Em julho deste ano, a 2ª Câmara de Direito Criminal do Tribunal de Justiça de São Paulo (TJ-SP) recebeu denúncia da Procuradoria-Geral de Justiça e tornou o ex-prefeito réu em ação penal que apura o suposto desvio de 2.187 munições adquiridas pela Prefeitura para uso da Guarda Civil Municipal (GCM). A acusação é de crime de responsabilidade, imputação que ele agora responde na condição de réu. O material foi encontrado na residência dele, na Praia do Porto Grande, durante busca e apreensão realizada em 24 de janeiro de 2025 – operação que também resultou na apreensão de pistolas, rifles, carabinas, carregadores e quatro cofres.
- Investigação por violência doméstica
A origem de toda a operação foi uma denúncia da ex-esposa, Michelli Veneziani, registrada na Delegacia de Defesa da Mulher (DDM) de São José dos Campos. Ela relatou que Felipe mantinha armas em casa e que se sentia ameaçada. O TJ-SP chegou a negar pedido liminar para suspender o processo de violência doméstica, mantendo o caso em tramitação. O mérito ainda não foi julgado.
- Rejeição das contas de 2022 por unanimidade
Em junho, a Câmara Municipal rejeitou por unanimidade (12 a 0) as contas do exercício de 2022, acompanhando parecer prévio desfavorável do Tribunal de Contas do Estado de São Paulo (TCE-SP). O relatório apontou um rol de irregularidades que impressiona: mudanças orçamentárias que somaram R$ 1,15 bilhão (quase 95% da despesa inicialmente prevista), R$ 3,59 milhões em gastos com publicidade por meio de 463 empenhos sem licitação, dificuldades de comprovação documental de despesas, déficit financeiro de cerca de R$ 830 mil e manutenção da nota C no Índice de Efetividade da Gestão Municipal (IEGM). O caso foi encaminhado ao Ministério Público do Estado de São Paulo e à Procuradoria Municipal.
O outro lado
A defesa do ex-prefeito não se cala. Em relação às munições, sustenta que Felipe participava de treinamentos de tiro com integrantes da Guarda Municipal e que os artefatos teriam sido levados por engano, apontando ainda falhas no controle de estoque da administração municipal. Sobre as armas, afirma que todas são legalmente registradas e cadastradas nos órgãos competentes. O advogado Anthero Mendes Pereira Junior declarou que “o mero recebimento de uma denúncia, iniciando um processo, em nada diz respeito com uma condenação” e que o ex-prefeito “está tranquilo, acreditando na Justiça e confiante na improcedência da ação”. A defesa também contesta a validade da busca e apreensão, alegando nulidade – e lembra que Felipe estava no exterior no dia da operação.
Nas contas de 2022, a defesa argumentou que o município cumpriu os índices constitucionais (27,41% em educação e 31,56% em saúde), que as alterações orçamentárias eram amparadas pela legislação municipal e que as falhas apontadas tinham caráter formal, sem prejuízo aos cofres públicos.
O veredito das urnas
Não é possível – nem honesto – atribuir a queda eleitoral a uma única causa. Fatores como a ausência da máquina pública, a mudança de cargo e o cenário nacional também pesam na equação. Mas o histórico que cerca o ex-prefeito exige respostas e prestação de contas.
Uma ressalva jurídica precisa ficar clara: investigações e acusações não equivalem a condenações. Réu não é culpado, e a presunção de inocência é cláusula pétrea do nosso ordenamento. Tampouco, porém, o escrutínio público pode ser dispensado de quem pede a confiança dos eleitores – e, neste domingo, os eleitores de São Sebastião deram a sua resposta: 9.534 votos.
Por Redação/Rota55






















