Estudo do Climate Impact Lab, ligado à Universidade de Chicago, projeta 451 mil mortes adicionais por calor no mundo entre junho de 2026 e fevereiro de 2027; país pode registrar 13,3 mil mortes, com quase 8 mil concentradas no verão
O calor extremo associado ao atual episódio de Super El Niño pode provocar cerca de 451 mil mortes adicionais em todo o mundo entre junho de 2026 e fevereiro de 2027, em comparação ao que seria esperado em um ano normal. A projeção é do relatório “451,000 at Risk: Where Action Can Save Lives During the Super El Niño”, divulgado na quarta-feira (23) pelo Climate Impact Lab, laboratório ligado à Universidade de Chicago, e traz o Brasil na quinta posição entre os países mais atingidos, com estimativa de 13,3 mil mortes relacionadas às altas temperaturas no período.
Fenômeno em ritmo recorde
O El Niño de 2026 já quebrou recordes antes mesmo de atingir o pico. Segundo o monitoramento do Climate Reanalyzer, da Universidade do Maine, com dados da NOAA, a anomalia diária na região Niño 3.4 do Pacífico Equatorial superou +3,04°C em 20 de setembro, o maior valor diário já registrado para a faixa, acima inclusive do pico do forte El Niño de 2015, que chegou a +3,02°C em 19 de novembro daquele ano.
Os cinco países mais atingidos
A projeção de mortes por calor concentra-se em países do Sul Global, onde a combinação de calor extremo, vulnerabilidade social e menor capacidade de adaptação amplia os riscos. O ranking dos cinco países com maior número estimado de mortes adicionais no período:
| Posição | País | Mortes adicionais projetadas |
|---|---|---|
| 1º | Nigéria | 31,4 mil |
| 2º | Indonésia | 19,3 mil |
| 3º | Sudão | 17,5 mil |
| 4º | Índia | 15,8 mil |
| 5º | Brasil | 13,3 mil |
Os números brasileiros devem se concentrar na segunda metade do período analisado: entre dezembro de 2026 e fevereiro de 2027, são estimadas cerca de 8 mil mortes adicionais no país, justamente o pico do verão no hemisfério Sul.
O que diz a metodologia
Para chegar aos números, os pesquisadores analisaram a relação histórica entre temperatura e mortalidade em 24.378 regiões do mundo, considerando clima local, vulnerabilidade da população e capacidade de adaptação, e cruzaram esses dados com as previsões de temperatura do sistema europeu ECMWF SEAS5. Os resultados foram comparados com a média de mortes relacionadas à temperatura entre 1996 e 2025.
Um “cartão-postal do futuro”
O relatório projeta que as temperaturas médias globais sobre as áreas terrestres ficarão 1,2°C (2,1°F) acima do normal nos próximos meses, em grande parte por causa do El Niño. Segundo os pesquisadores, as condições atuais antecipam um cenário que, por efeito das mudanças climáticas, seria esperado apenas daqui a cerca de duas décadas. O fenômeno é descrito como uma espécie de “cartão-postal do futuro”: temperaturas hoje consideradas anormais podem se tornar comuns nas próximas décadas.
Mortes evitáveis
Os pesquisadores destacam que os números projetados não são inevitáveis. Michael Greenstone, cofundador do Climate Impact Lab e professor de economia da Universidade de Chicago, afirmou que o relatório permite identificar onde ações emergenciais podem ter efeito imediato: “Este relatório permite que os tomadores de decisão vejam exatamente onde ações emergenciais podem ser tomadas agora para salvar dezenas de milhares de vidas nos próximos meses.”
Importante: os 451 mil casos são uma estimativa para os próximos meses, baseada em modelos e dados históricos. O número não representa uma contagem confirmada de vítimas, e especialistas recomendam atenção aos períodos de calor extremo, hidratação e cuidados com populações mais vulneráveis, como idosos, crianças e pessoas com doenças preexistentes.





















