O ATIVO INVISÍVEL

0
12

Por que o valor de São Sebastião hoje vai além da infraestrutura, da logística e de suas belezas naturais

Se o Tribunal de Contas do Estado de São Paulo fosse uma agência de classificação de risco, São Sebastião teria entrado em 2025 sob perspectiva negativa.

Os números explicavam o alerta: em 2024, para uma receita de R$ 1,66 bilhão, a despesa empenhada superou R$ 2,27 bilhões. O desequilíbrio atravessou a política, bateu nos órgãos de controle e impôs uma palavra inevitável: ajuste.

O mercado conhece esse roteiro. Quando os fundamentos pioram, o risco sobe. E alguém paga a conta.

Um ano depois, o balanço contava outra história. Em 2025, a receita consolidada voltou a ficar acima da despesa empenhada – trajetória mantida no primeiro quadrimestre de 2026.

Organização fiscal também produz algo que não aparece nos livros contábeis: credibilidade.

Os problemas não desapareceram. O risco mudou de direção.

A geografia continua a mesma. O Porto e o TEBAR já estavam aqui. A Costa Sul não descobriu agora o valor do seu metro quadrado.

O que parece estar mudando é o desconto que o risco impunha ao território.

Os sinais estão fora das planilhas: mais empresas sendo abertas, turismo avançando além dos picos tradicionais, emprego formal reagindo e procura imobiliária por imóveis de médio e alto padrão.

Isolados, são indicadores.

Juntos, começam a formar preço.

A escala logística acelera a equação. O Porto ganhou ligação direta com a Tamoios. A modelagem do SSB01 incorporou contêineres em uma área de 426 mil metros quadrados e o planejamento já trabalha com operações acima de um milhão de TEUs. Ao lado, o TEBAR permanece peça estratégica da cadeia energética paulista.

Porto e terminal não pertencem à Prefeitura, mas, à economia do território. Isso ajuda a explicar São Sebastião.

Parte das decisões capazes de alterar profundamente seu futuro é tomada fora daqui. Passa pelo Estado, União, Petrobras, Transpetro, ANP, setor portuário, concessionárias e capital privado.

Governar São Sebastião também é governar relações.

Não para colecionar reuniões. Para diminuir a distância entre decisão e território.

É nesse ponto que equilíbrio fiscal, segurança jurídica, licenciamento, infraestrutura e articulação institucional deixam de parecer burocracia. Viraram ambiente de negócios.

Licença demorada custa dinheiro. Regra imprevisível custa dinheiro. Incerteza entra na planilha.

Durante anos, parte da riqueza gerada aqui encontrou espaço para se instalar fora. Atividades ligadas ao Porto expandiram armazenagem e logística em municípios vizinhos. Ficou uma lição: é possível movimentar riqueza sem retê-la.

A expansão portuária abre agora o desafio inverso: atrair escritórios, pátios, fornecedores, serviços e empregos qualificados.

Não basta gerar valor. É preciso capturá-lo.

Há riscos. Petróleo oscila. Turismo é sazonal. O território é ambientalmente sensível e fisicamente limitado. Investimentos podem atrasar.

Expectativas também fracassam. Por isso expectativa e confiança não são sinônimos.

Expectativa é gratuita. Confiança precisa ser merecida.

Ela não nasce de discurso. Aparece quando alguém aceita o risco: abre uma empresa, compra um terreno, contrata, investe, volta.

Não há como calcular a valorização de São Sebastião como se fosse uma companhia listada em bolsa. Nem seria sério tentar. Mas quem olha pelo para-brisa encontra uma cidade diferente daquela do início de 2025.

Os ativos tangíveis são praticamente os mesmos. O futuro, não.

Talvez esteja justamente aí o ativo que nenhuma contabilidade municipal consegue registrar. Confiança.

A riqueza já se convenceu a passar – e começa a decidir ficar em São Sebastião.

Cabe a nós manter alta a régua que tornou o território mais confiável para quem decide investir.

Porque confiança também é patrimônio. E é ela que ajuda a reprecificar uma cidade.

Fonte: Pimenta na Política

 

DEIXE UMA RESPOSTA

Por favor digite seu comentário!
Por favor, digite seu nome aqui